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quinta-feira, agosto 10, 2006

Por Que Isso é Arte? e A Imaginação

Por que isso é arte?” “O que é arte?” Poucas perguntas provocarão polêmica mais acesa e tão poucas respostas satisfatórias. Embora não cheguemos a nenhuma conclusão definitiva, podemos ainda assim lançar alguma luz sobre estas questões. Para nós, arte é, antes de mais nada, uma palavra, uma palavra que reconhece quer o conceito de arte, quer o fato de sua existência. Sem a palavra, poderíamos até duvidar da própria existência da arte, e é um fato que o termo não existe na língua de todas as sociedades. No entanto, faz-se arte em toda a parte. A arte é, portanto, também um objeto, mas não é um objeto qualquer. A arte é um objeto estético, feito para ser visto e apreciado pelo seu valor intrínseco. As suas características especiais fazem da arte um objeto à parte, por isso mesmo muitas vezes colocado à parte, longe da vida cotidiana, em museus, igrejas ou cavernas. E o que se entende por estético? A estética costuma ser definida como “o que diz respeito ao que é belo”.

É claro que nem toda a arte é bela aos nossos olhos, mas não deixa por isso de ser arte. Na falta de um termo melhor, teremos de nos contentar com o termo estético, embora ele não satisfaça inteiramente. A estética, enquanto ramo da filosofia, tem preocupado os pensadores desde Platão aos nossos dias, mas, tal como todas as questões filosóficas, talvez os problemas levantados pelo “belo” sejam inerentemente insolúveis. Durante o século passado, a estética tornou-se também objeto de estudo da psicologia, mas também aí não se chegou a nenhum consenso. Por que será assim? Por outro lado, as pessoas por esse mundo afora fazem sensivelmente os mesmos juízos fundamentais, pois os nossos cérebros e sistemas nervosos são os mesmos. Mas, por outro lado, o nosso gosto e as nossas opções são exclusivamente condicionados pela cultura em que estamos inseridos, e as culturas são tão diversificadas que se torna impossível reduzir a arte a um conjunto de regras suscetíveis de serem aplicadas em toda a parte. As leis da investigação “científica” no campo da percepção visual só têm validade quando o artista também conhece as teorias e as aplica conscientemente. Caso contrário, as leis pouco ou nada nos ajudam a compreender obras de arte “externas”. Parece assim impossível definir qualidades absolutas em arte, não havendo como escapar à necessidade de apreciar as obras de arte no contexto do seu tempo e cincunstancialidade, sejam eles quais forem. Nem poderia ser de outra maneira, quando a arte continua a ser criada à nossa volta, abrindo-nos quase todos os dias os olhos a novas experiências e obrigando-nos a reajustar as nossas percepções.



A IMAGINAÇÃO

Todos nós sonhamos. É a nossa imaginação trabalhando. Imaginar quer dizer simplesmente criar uma imagem – um quadro – no nosso espírito. E não são os seres humanos os únicos a terem imaginação. Até os animais sonham. O gato, dormindo, mexe as orelhas e a cauda, o cão geme, rosna e agita as patas como se estivesse lutando. Mesmo acordados, os animais “vêem” coisas. Sem qualquer motivo aparente, o pêlo do gato eriça-se todo quando o bicho espreita para dentro de um armário escuro, tal como nós por vezes sentimos um arrepio causado por fantasmas que não vemos nem ouvimos. Mas é claro que há uma diferença profunda entre a imaginação humana e a animal. Só o homem é capaz de usar a imaginação para contar histórias ou pintar. A necessidade de fazer arte é exclusivamente humana. Nenhum outro animal jamais desenhou espontaneamente uma imagem reconhecível como tal. De fato, as únicas imagens produzidas por animais foram em laboratórios, sob controle rigoroso, e dizem-nos mais acerca do investigador do que da arte.

Não restam dúvidas, por outro lado, de que o homem possui uma faculdade estética. Aos cinco anos, toda criança normal já desenhou uma cara redonda. A capacidade de criar arte é um traço distintivo do homem, que o separa de todas as outras criaturas como um abismo intransponível.

Tal como um embrião passa por fases semelhantes às da evolução humana através dos tempos, também o artista, no começo, reinventa os primórdios da arte. Em breve, atinge o fim do processo e começa a reagir à cultura que o cerca. Até mesmo a arte produzida por uma criança está sujeita ao gosto e aos conceitos da sociedade que lhe molda a personalidade. Na verdade, costumamos avaliar a arte infantil segundo os mesmos critérios que aplicamos à arte adulta, apenas em termos mais simples, o que está certo, pois se observarmos os vários estágios sucessivos veremos que o jovem artista tem de desenvolver todas as capacidades presentes na arte do adulto: coordenação, inteligência, personalidade, imaginação, criatividade, sentimento estético. Sendo assim, a evolução de um artista jovem é um processo tão frágil como o próprio crescimento, um processo que pode a todo momento ser adulterado pelas vicissitudes da vida. Não admira pois que sejam tão poucos os que têm a sorte de ver as suas aspirações criativas atingirem a maturidade.

Dados os múltipolos fatores que nela confluem, a arte tem forçosamente de desempenhar um papel muito especial na personalidade do artista. Sigmund Freud, o pai da psicanálise moderna, concebia a arte sobretudo como uma sublimação fora do consciente. Esta concepção não faz jus à criatividade artística, já que a arte não é simplesmente uma força negativa, à mercê das nossas neuroses, mas antes uma expressão positiva que integra aspectos diversos da personalidade. Tanto é assim que, ao olharmos a arte produzida por doentes mentais, podemos ficar impressionados pela sua força, mas instintivamente sentimos que há algo errado, que a expressão ficou incompleta.

É possível que os artistas se sintam por vezes atormentados pelo peso do seu gênio, mas não podem ser verdadeiramente criativos sob o jugo de uma psicose. A imaginação é uma das facetas mais misteriosas do homem. Pode ser vista como o elo de ligação entre o consciente e o subconsciente, onde decorre a maior parte da nossa atividade mental. É a argamassa que mantém unidas a personalidade, a inteligência e a espiritualidade do homem. E porque a imaginação é sensível às três, obedece, de modo legítimo se bem que imprevisível, aos ditames da psique e do espírito. Assim, até as manifestações artísticas mais íntimas podem ser compreendidas em algum nível, no mínimo em um nível intuitivo.

A imaginação é importante por nos permitir conceber toda espécie de possibilidades em relação ao futuro e compreender o passado de modo a manter-lhe vivo o valor no presente. É uma parte essencial da nossa constituição. Já a capacidade de criar arte deve representar uma aquisição relativamente recente na nossa evolução. Não nos resta qualquer vestígio da primeira arte criada pelo homem. Há uns três milhões de anos ele habita a terra, mas a arte pré-histórica mais antiga que conhecemos data de escassos 25.000 anos e representa, sem qualquer dúvida, o culminar de um longo processo evolutivo, impossível de recriar. Mesmo a arte etnográfica mais “primitiva” representa um estágio tardio, produto de uma sociedade estável.

Quem foram os primeiros artistas? Muito provavelmente os xamãs. Tal como ao lendário Orfeu, atribuíam-se a eles poderes divinos de inspiração e acreditava-se que podiam, num transe semelhante à morte, penetrar nas profundezas do subconsciente; ao contrário do comum dos mortais, porém, podiam regressar ao reino dos vivos. Graças a essa capacidade única de penetrar no desconhecido e ao seu talento para exprimir esse desconhecido através da arte, o xamã apoderou-se das forças secretas do homem e da natureza. Ainda hoje, o artista permanece um mágico, cujo trabalho nos perturba e comove – fato que deixa o homem civilizado um tanto embaraçado, pois ele não abdica facilmente do seu verniz de autodomínio racional.

O que leva o homem a criar obras de arte? Sem dúvida uma das razões é a necessidade premente de se enfeitar e de decorar o mundo à sua volta, necessidade que faz parte de um outro desejo, mais vasto, não o de recriar o mundo à sua imagem, mas antes o de dar a si próprio e ao mundo que o cerca nova forma ideal. A arte, porém, é muito mais do que decoração, carregada como está de significado, ainda quando esse significado é pobre e obscuro. A arte permite-nos transmitir a nossa percepção de coisas que não podem ser expressas de outra forma. Na verdade, um quadro vale milhares de palavras, não só pelo seu valor descritivo, mas ainda pela sua importância simbólica. Na arte, como na linguagem, o homem é acima de tudo um criador de símbolos, através dos quais nos transmite, de um modo novo, pensamentos complexos. Temos de encarar a arte, não em termos da prosa comum do dia-a-dia, mas em termos de poesia, que tem a liberdade de reordenar a sintaxe e o léxico convencionais, de modo a transmitir novos e múltiplos significados e estados de espírito. Do mesmo modo, um quadro sugere muito mais do que diz. E, tal como um poema, o seu valor reside tanto naquilo que diz como na maneira como diz. Pode recorrer à alegoria, à pose, à expressão facial, para sugerir significados, ou então evocá-los através de elementos visuais, como o traço, a forma, a cor e a composição.

Mas qual o significado da arte? O que nos quer transmitir? Os artistas raramente nos esclarecem, já que para eles a obra diz tudo. Se eles pudessem explicá-la, seriam certamente escritores e não artistas. Felizmente, certos símbolos e relações ocorrem com tanta regularidade no espaço e no tempo que podem ser considerados virtualmente universais. No entanto, o seu significado exato é específico de uma dada cultura, dando origem à espantosa diversidade da arte.

Assim, a arte, tal como a linguagem, exige que conheçamos o estilo e as concepções de um país de um período e de um artista, se a queremos compreender convenientemente. Estamos tão arraigados a uma tradição naturalista de reprodução exata que esperamos da arte que ela imite a natureza, e, no entanto, este ilusionismo é apenas um dos veículos para dar expressão à percepção que o artista tem da realidade. A verdade parece, na realidade, ser relativa, pois se trata não só do que os nossos olhos vêem, mas também dos conceitos através dos quais as nossas percepções são filtradas.

Não há, pois, qualquer razão para se valorizar o realismo por si só. Bastará que o estilo seja apropriado ao conteúdo. A vantagem óbvia do realismo é que parece mais fácil de compreender. A desvantagem reside no fato de a arte representativa estar, como a prosa, sempre limitada, pelo menos até certo ponto, pelo seu significado literal e pela aparência do mundo cotidiano. De fato, o realismo é uma exceção na história da arte e nem sequer lhe é necessária para atingir os seus objetivos. Não devemos esquecer que qualquer imagem constitui uma realidade auto-suficiente e autônoma, que tem os seus próprios fins e obedece a imperativos próprios, pois o artista está vinculado apenas à sua criatividade. Mesmo ilusão mais convincente é o resultado da imaginação e da percepção do artista, de tal modo que temos sempre de perguntar por que razão ele escolheu um determinado tema e o tratou de determinada maneira e não de outra.

O próximo artigo desta série é A CRIATIVIDADE e A ORIGINALIDADE


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